
1. Por que decidiu escrever sobre o tema?
Por ser um tema ainda pouco estudado, apesar de ser algo muito latente no campo religioso católico. Não dá para ignorar as manifestações religiosas desta natureza dentro e fora dos espaços sagrados de nossas igrejas. Assim sendo, quis trazer para a reflexão, de modo sistemático e com recorte antropológico, essas manifestações religiosas que acontecem à margem da Igreja.
2. Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?
Em primeiro lugar, ele terá uma visão mais ampla dessas manifestações religiosas e ampliará seus horizontes e conceitos acerca das mesmas, dirimindo preconceitos. Aprenderá a relacionar-se com tais manifestações de fé e entenderá o porquê de elas existirem tão fortemente no seio da Igreja Católica. Além disso, o leitor vai se encontrar em muitos pontos, pois todos nós, católicos, de uma maneira ou de outra, trazemos dentro de nós algo semelhante no tocante às nossas devoções particulares, sejam elas reconhecidas ou não pela Igreja. Enfim, o leitor terá ideia do que essas devoções representam no imaginário religioso católico e de como elas sobrevivem às margens da Igreja Católica.
3. Quando decidiu escrever o livro?
Este livro nasceu a partir dos estudos das teorias do antropólogo Marcel Mauss, enquanto eu fazia minha tese de doutorado. A maneira como Mauss trata o sagrado e suas relações levaram-me a pesquisar esse campo religioso ainda pouco explorado nos estudos das Ciências Sociais, mais especificamente, da Antropologia. O que eu coloco neste livro é resultado de uma pesquisa de campo mais ampla, em diversos lugares do Brasil, coletadas in lócus, ou através de informantes privilegiados e de descrições veiculadas nos meios de comunicação. Assim, o conteúdo deste livro foi reunido ao longo de cinco anos, primeiro como um trabalho acadêmico e depois publicado como livro.
4. Ao escrever o livro, você pensa em atingir algum público específico? Qual?
Sempre que se prepara um livro pensa-se num público específico, mas no meu caso, procuro não me restringir a apenas um determinado público para não limitá-lo. Em primeiro lugar ele está voltado para estudantes, professores e pesquisadores das áreas das ciências humanas e Sociais (Antropologia, Sociologia e Ciências da Religião), passando pela teologia, psicologia e outras áreas. Porém, procurei ter o cuidado de não me ater apenas à linguagem acadêmica para não reduzir o campo de abrangência da obra a um público seleto, como disse antes. Assim, o livro pode ser lido e facilmente entendido por qualquer pessoa, mesmo que ela não seja do círculo acadêmico, como, por exemplo, as pessoas devotas dos ditos “santos marginais”, isto é, aqueles santos que ainda não receberam, ou que dificilmente irão receber o reconhecimento da Igreja, isto é, serem canonizados. Aqui elas encontrarão explicações racionais para sua manifestação de fé, embora não seja este um livro de espiritualidade e nem de teologia.
5. O que significa ‘O imaginário religioso nas devoções marginais’?
Imaginário é aquilo que está na imaginação das pessoas, no inconsciente coletivo, como se diz no campo da psicologia. Nosso país é rico em manifestações religiosas e boa parte delas é católica, ou de matriz católica. Assim sendo, independentemente da pessoa ser católica, ela tem uma imagem do religioso formulada em sua mente, seja consciente ou inconscientemente. Esta imagem nem sempre condiz com aquilo que a Igreja orienta em suas doutrinas, mas, na devoção popular isso não tem importância. O que conta mesmo é a sua relação com o santo, sem intermediações de uma Instituição, no caso a Igreja. Assim, quem cultiva uma devoção marginal, manifesta-a independentemente da aprovação da Igreja. É o senso comum, a tradição, a cultura que determinam seus procedimentos e não as normas da Igreja. Forma-se, assim, o que classificamos como imaginário religioso e, neste caso, um imaginário formado por devoções de cunho marginal, no sentido de não oficial. É algo muito presente em várias partes do Brasil, não apenas nas regiões onde a Igreja ainda é pouco presente, mas também nos grandes centros urbanos e na zona rural. Deste modo, é algo que depende mais de aspectos culturais do que da doutrina da Igreja.
6. Qual é a maior característica do catolicismo popular?
É a autonomia em relação à Igreja. O catolicismo popular não precisa da mediação da Igreja e dos sacramentos para existir. É uma relação direta com o santo, o mediador entre o fiel e Deus. Quem pratica o catolicismo popular, principalmente os de vertente marginal, não se preocupa com os preceitos religiosos orientados pela Igreja, como, por exemplo, participar das missas, obter os sacramentos, enfim, seguir as doutrinas. Os sacramentos, quando se buscam, buscam-se com uma visão mágica, ou como ato social, e não tanto como compromisso ou como sacramento propriamente dito. Nisto consiste uma das características do catolicismo popular.
7. O sincretismo religioso já ganhou muito espaço no catolicismo popular?
Sim, o catolicismo popular tem muita mistura de outras manifestações religiosas. É essa mistura que confere particularidade nesta categoria de catolicismo dito popular, principalmente o catolicismo de folk, isto é, as manifestações religiosas que se baseiam em tradições folclóricas e nas devoções marginais, como é o caso das devoções às almas e a objetos sagrados, assunto tratado no livro. Nesta prática encontramos elementos principalmente das religiões afros e indígenas.
8. Como se desdobra o ‘contrato’ no âmbito religioso na dimensão em toda a vida social do fiel em uma relação de poder que o santo confere sobre o fiel?
Consiste naquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de “troca simbólica” e que Marceu Mauss classificou como “dádiva” ou “troca de dádiva”. O fiel faz um pacto com o santo, através da promessa. Ele pede algo ao santo e, em troca, lhe oferece algo, que pode ser um objeto, dinheiro ou um sacrifício, no sentido de uma penitência, um ex-voto. As salas de milagres dos santuários estão repletas desta relação de troca, ou de contrato com o santo. Essa prática é muito antiga na Igreja e tem ganhado força onde o Estado e a Igreja, enquanto instituição, estão ausentes. O Estado no sentido do abandono, da falta de assistência, restando apenas os santos para o fiel recorrer nas suas necessidades elementares, como, por exemplo, de saúde e de moradia; a Igreja, pela falta de uma catequese mais acentuada e de formação teológica e eclesial. Estas duas ausências fazem com que práticas religiosas devocionais se solidifiquem como meio de sobrevivência. Assim, desenvolve-se uma relação de troca, de barganha com o santo, própria das relações entre as pessoas. Marcel Mauss e Bronislaw Malinowski, cada um a sua maneira, trabalharam muito bem estas questões em seus estudos antropológicos. Aqui eu as retrato de uma maneira peculiar, exemplificando situações concretas do poder que o santo confere sobre o fiel.
9. Como se dão os sacrifícios e por que eles são incorporados na intuição de demonstração de fé?
Os sacrifícios, que são na verdade práticas penitenciais, são praticados nas mais variadas formas. Uns preferem práticas de autoflagelo, como, por exemplo, andar de joelhos, carregar cruzes, andar longas distâncias com os pés no chão, enfim, uma infinidade de gestos que têm como propósito sentir na carne o sofrimento, num desejo mimético de imitação do sofrimento de Cristo. Por outro lado, há os que prometem fazer doações, seja de bens materiais, dinheiro, ou bens simbólicos, como os ex-votos. Basta visitar as salas de milagres, ou de promessas, dos santuários e encontraremos uma infinidade de objetos que representam a fé do devoto e o sacrifício que ele fez para obter uma graça, ou para agradecer a graça recebida. Enfim, toda prática de sacrifício, de qualquer natureza, visa uma imitação de Cristo e, consequentemente, uma aproximação dele.
10. Por favor, discorra um pouco sobre o tema de devoção e do culto aos santos de cemitério e sua importância para o catolicismo marginal.
A devoção, ou culto aos santos, é uma prática muito antiga na Igreja. Ele chegou até nós através da colonização portuguesa, sendo, portanto, uma prática bastante vivida na Europa, mais especificamente, em Portugal. Aqui, ao encontrar-se com outras práticas religiosas e culturais, como as práticas indígenas e, posteriormente a africana, ela ganhou novos contornos e significados. Assim, a devoção aos santos, tipicamente lusitana, amalgamou-se a outras práticas, dando origem às devoções marginais, isto é, devoções às almas, a objetos e lugares tidos como sagrados. O culto aos chamados “santos de cemitério” está relacionado ao mistério da morte. Tudo o que é envolto em mistério provoca a imaginação e, assim, se cria um universo religioso a ele relacionado. Esse universo nem sempre condiz com a realidade ou com as orientações da religião oficial, como foi dito antes. Assim, o culto aos santos de cemitério é uma das expressões mais fortes do catolicismo marginal. Ela se evidencia em diversas ocasiões, mas principalmente no dia de finados, quando os túmulos de pessoas tidas como santas recebem muitos visitantes. Há túmulos que são visitados o ano todo, mas no dia 2 de novembro eles são disputadíssimos.
Sobre o autor:
José Carlos Pereira é padre Passionista, licenciado em filosofia, teólogo pastoralista, bacharel em Teologia pelo Ateneu Santo Anselmo de Roma, com mestrado em Ciências da Religião e doutorado em Sociologia. É tradutor, colunista da Revista Paróquias & Casas Religiosas e escreveu mais de trinta obras, dentre as quais “Religião e exclusão Social” e “Os dons do Espírito Santo e as virtudes da fé”, pela Editora Santuário. Além das atividades pastorais em sua paróquia, no Rio de Janeiro, ministra palestras e cursos na área de gestão eclesial. Tem contribuído em Congressos com comunicações e conferências na área das Ciências Sociais, em Universidades de diversos países. Maiores informações sobre o autor e suas publicações se encontram na página: www.pejosecarlospereira.com.br
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